Autoentrevista com um ex-Publicitário

Nota: Este é um artigo que escrevi em 2013, mas que se encontra atual até hoje. E, de fato, estava coberto de razão. A crise pós-copa veio para destruir ainda mais as pequenas agências, estimular fusões das maiores e direcionar a receita publicitária para internet, onde a figura do publicitário muitas vezes é dispensável.

Quando decidi mudar radicalmente minha vida profissional e abandonar o mercado publicitário, algumas pessoas não entenderam muito bem essa escolha. É claro que os questionadores não eram publicitários, nem tampouco conheciam a rotina de um profissional de criação. Por isso resolvi fazer uma auto-entrevista, a fim de fazer-me entender melhor àqueles que ainda não se convenceram de que esta escolha foi decididamente a melhor para o meu futuro.

Não quero cuspir no prato que comi. Vou apenas apontar os defeitos do prato para que o próximo se alimente melhor, com mais dignidade.

 

Por que você mudou do mercado publicitário para o setor público?

Porque em certas áreas do setor público há uma série de vantagens em relação ao mercado publicitário: horários regulares, maior valor à hora trabalhada, plano de carreira, maior segurança (mesmo nas celetistas) e maior respeito pelo funcionário. Após trabalhar em quatro agências de publicidade, eu percebi que, o que antes eu considerava crise, era na verdade uma nova ordem do mercado publicitário: mais popular e menos rentável. Durante meu período nesta área, não vi uma boa quantidade de grandes salários – apenas um ou outro. O que percebi de fato foi alta rotatividade e pouco respeito pelo horário de trabalho – apesar de ter dado a sorte de nunca ter virado a noite, ficando no máximo até 23:45h. Porém, em duas delas, era comum ficar após às 19:30h. Todos ficavam à mercê do humor do chefe. E a remuneração por hora-extra é uma coisa quase inexistente nesse meio, soando como piada.

Em agências maiores, a coisa é pior: virar noite é algo rotineiro. Uma fonte confiável dentro de uma grande agência, daquelas em que seu criador é famoso por suas citações, disse que o trabalho na criação é “ralação total, tipo escravidão.” Ou seja, quem quiser progredir na carreira publicitária, quem almeja uma grande agência e uma maior remuneração, deve abrir mão de sua vida pessoal.

 

O setor público paga melhor que o mercado publicitário?

O setor público é muito amplo. Mas em algumas empresas públicas, isso é verdade. A matéria “O valor da ideia”, publicada no jornal O Globo no dia 11/12/2011, traz uma pesquisa mostrando que o salário médio do publicitário carioca é de R$ 2.238, já contando os dissídios de 2011 e 2012. Para efeito de comparação, podemos pegar o edital do concurso do Banco do Brasil, publicado em fevereiro de 2013 . O valor era de R$ 1.892 para trabalhar 6 horas por dia, 30 por semana. E com horas extras pagas. Um publicitário trabalha cerca de 9 horas por dia em média, isso nas agências mais tranquilas. Fazendo as contas, vamos chegar à conclusão que a hora no setor bancário público vale cerca de 30% a mais do que na publicidade. Isso sem contar os outros benefícios, as chances de promoção e outras vantagens. Aí seria uma vitória de lavada!

 

A que você atribui esse baixo valor da hora trabalhada na publicidade?

À lei da oferta e procura. Estudar publicidade virou modinha entre os jovens, porque se tem a impressão de que você trabalha se divertindo. Mas não existe trabalho que é só diversão. Até mesmo quem trabalha com eventos concorda comigo. Há responsabilidades, prazos, repetições e nada disso é divertido. Com publicitários se formando aos montes, a oferta de profissionais aumentouE com isso, os salários diminuíram. É fato conhecido que muitos estagiários trabalham como se fossem contratados. Mas aceitam essa exploração para estarem por dentro do ambiente publicitário, para fazer parte do suposto “glamour” que carrega consigo. E o pior: quando promovidos, aceitam ganhar metade do que um profissional na mesma função ganha. Tudo para poder fazer valer seus estudos e estar trabalhando no meio. Como se isso fosse “cool”.

 

Você mencionou acima a expressão “plano de carreira.” O publicitário não tem?

Não o profissional de criação. A única esperança deste é virar Diretor de Criação, cargo que só existe nas grandes agências e que consome 100% do tempo livre do profissional. Ou então abrir sua própria agência. Por isso que é comum você encontrar profissionais com cerca de 40 anos de idade trabalhando no departamento de criação. E o mercado fica difícil pra quem tem mais idade que isso.

 

Você se arrepende de ter estudado publicidade?

Não, porque eu entendo a escolha que fiz. Fazer um segundo grau técnico em publicidade foi o caminho mais curto e acessível que encontrei para começar a trabalhar e ganhar dinheiro, pois nunca fui playboy. Depois pensei que precisava ter uma faculdade de publicidade para aumentar as minhas chances de trabalhar numa grande agência. Já formado, percebi que o curso acadêmico era mais do que um reforço no currículo. Ele ensina o que você não conhece e onde procurar o conhecimento quando você precisar dele, como descobrir a si mesmo e como interagir com outras pessoas, como lidar com a rejeição e o fracasso. Graças a esse tipo de educação e treinamento, pude fazer pesquisas sobre o mercado publicitário atual e refletir seu futuro.

 

Você considera que está jogando fora 11 anos de experiência com publicidade?

Não. O horário de trabalho regular que a empresa pública me oferece permite que eu pegue trabalhos freelance, apesar de não estar nos meus planos imediatos. Mesmo que não pegue nenhum, não há problema. Ganhei um bom dinheiro com este conhecimento. E a vida atual nos ensina que nenhum conhecimento rende frutos eternamente. Quando o cenário muda, precisamos ter a coragem de nos desapegar de certas habilidades para adquirirmos outras. É o caso do mecânico especialista em carburador ou do profissional especialista em revelar rolos de filmes fotográficos. Estão ultrapassados. Posso dar um exemplo próprio: durante cinco anos, trabalhei com um software chamado Adobe Flash, que faz animações para internet. Só que hoje ele está sendo superado pelo conjunto de linguagens HTML 5+CSS+Javascript, linguagens que rodam em qualquer plataforma (desktops, notebooks, tablets, smartphones, etc). Ou seja, quem sabe Flash vai ter que se virar para aprender a usar HTML5, ou então vai ficar pra trás. E a empresa em que estou trabalhando é grande, possui uma boa área de marketing. Se eu achar que vale a pena, vou fazer o possível pra trabalhar lá. Mas nada me impede de focar em TI, por exemplo, uma área que só cresce, tem escassez de profissionais e, por isso, paga bem.

 

Não acha chato ser empregado público?

Não, porque não me iludo mais com o conceito de “fazer o que se gosta”. Trabalho é trabalho, diversão é diversão. Durante minha vida profissional como publicitário, não tive essa diversão toda que alguns pensam que a publicidade tem. Como Diretor de Arte, diagramei muitos livros, fiz muitos anúncios de carros, de vidraçarias, de medicamentos. Isso sem falar que 60% de todo o trabalho consistia em alterações de campanhas prontas. Ou seja, nada muito divertido. Pelo menos nesse meu novo trabalho eu tenho horários fixos, que variam entre 6 e 8h por dia. No resto do dia posso ser mais criativo.

 

Você acha que vai ser taxado de acomodado por ser funcionário público?

Acho sim. Porém, vou ser taxado por pessoas que desconhecem totalmente o novo setor público. Há empresas e empresas. Estou entrando numa que há um claro e conhecido plano de carreira, com diversas áreas dentro desta corporação. Ou seja, só fica acomodado quem quer. E mesmo que minha organização fosse uma que não oferecesse oportunidades para subir na carreira, não teria problema. Estudaria para outros concursos com carreiras mais promissoras ou procuraria ter um negócio que não entrasse em conflito com meu horário de trabalho. O que não posso é ficar empacado como Diretor de Arte a vida inteira.

 

O que o mercado publicitário pode fazer para melhorar?

Se unir. Hoje, ou por causa da disputa por vagas no mercado, ou por pura preguiça, ou por infantilidade mesmo, há muita desunião entre os profissionais de publicidade, principalmente do departamento de criação. Muitos aceitam sem reclamar as horas-extras extenuantes que são coagidos a fazer. Outros acham que está tudo certo em trabalhar sem carteira-assinada, abrindo mão de todos os direitos e garantias que os trabalhadores do Brasil têm por lei. Além disso, o sindicato publicitário é fraco, só existe para resolver a burocracia de quem é demitido. Porém, uma reação unida não vai surtir tanto efeito se a publicidade continuar sendo a profissão da moda. Porque enquanto existirem substitutos, quem não se enquadrar será demitido. Por isso, também é preciso  divulgar a realidade do cotidiano da publicidade. Falar aos estudantes e aos profissionais que estão entrando que eles vão viver para agência, fazer seus horários de acordo com a vontade do chefe e não de acordo com a lei. Falar que vai ser mais difícil montar uma família trabalhando numa agência dessas e que os principais amigos serão os colegas de trabalho.

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PARA REFLETIR E SABER MAIS:

EXEMPLO REAL SOBRE COMO UM DIRETOR DE CRIAÇÃO ENTUBA HORAS-EXTRAS EM SEUS SUBORDINADOS (“Traz sua escova de dentes”):

http://youtu.be/mDDq9y3BMOc?t=4m59s

 

COMERCIAL BEM HUMORADO QUE FALA SOBRE A PROSTITUIÇÃO DO MERCADO PUBLICITÁRIO

http://www.youtube.com/watch?v=CYu1cQs4Y5Y

 

COMERCIAL BEM-HUMORADO QUE FALA SOBRE A REALIDADE DAS AGÊNCIAS DE PUBLICIDADE

http://www.youtube.com/watch?v=ANoc0srXw3A

 

COMO CRIAR CORAGEM PARA RECUSAR HORAS-EXTRAS GRATUITAS

http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/max-gehringer/2011/04/12/ESTICAR-EXPEDIENTE-E-UM-HABITO-BRASILEIRO.htm

 

LIVRO “CHEGA DE OBA-OBA”, DA PUBLICITÁRIA JUDITH MAIR

http://compare.buscape.com.br/chega-de-oba-oba-judith-mair-8533621280.html?pos=1#precos

 

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